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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

«Podemos tratar dos dói-dóis, mas não há cura para o facto de termos nascido; há que tirar o máximo partido dessa constatação, talvez até a possibilidade de se ser feliz.»


(Michel Crépu)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção




Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.



Aldous Huxley




domingo, 28 de agosto de 2011

RESGATANDO O PRAZER DAS COISAS...

(eu com 2 anos)


Quero achar o significado das coisas do jeito que uma criança faz: sem pensar, sem definir, sem refletir sobre;  apenas pelo prazer que a coisa em si oferece.
Procurar lembrar das coisas que me davam prazer na infância, coisas simples. Há sensação melhor que essa? Aos poucos vou recuperando essa maneira de viver. É a que mais me preenche!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Vida, uma inquietação

t

Claricer Lispector



Sou o que se chama de uma pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu em vez de refletir sobre o que veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: as vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, as vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos...E até que ponto posso controlá-los...Deverei continuar a acertar e errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob forma de impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.



(Clarice Lispector)



ver texto aqui

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

KAFKA

Um irmão de alma, uma alma irmã, enfim...divido com vocês um precioso site:


http://www.kafka.org/

pragueclock (imagem do site acima)












«Theoretically there is a perfect possibility of happiness: believing in the indestructible element in oneself and not striving towards it.»



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

TIRE SUA SENHA E AGUARDE SUA VEZ...

Enquanto esperava ser atendida num local onde se tem que pegar uma senha, vi que teria de aguardar bastante: minha senha era no. 5430 e estavam chamando a 5398. Havia um sinal sonoro a cada vez que o painel mostrava um novo número, sendo várias as séries, algumas começando com 5000, 4000,  3000, dependendo do caso.

Esperei por mais de uma hora (exatamente 1h00 e 0h15) enquanto filosofava sobre a vida.

Na vida você não tem sossego. Nunca. Como nessa sala de senhas. Sempre há a necessidade de se ficar alerta, nunca se pode relaxar em paz. O toque constante para avisar a nova senha perturba nosso sossego. Mesmo sabendo que ainda vai demorar para chegar sua vez, há uma urgência  em olhar o número mostrado no luminoso, o medo de que sua vez passe, e isso se repete a cada 10 segundos, a cada vez que uma das séries é mostrada.

Essa é a vida: sua senha já foi distribuida. Aguarde sua vez...

domingo, 14 de agosto de 2011

OBRA ÉDITA - FERNANDO PESSOA

«Não cites Fernando Pessoa em vão.»
Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. - T


Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou.


Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.


Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente.


Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.


O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.


Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.



Minha nota:
acredito que existam almas gêmeas, sim. No entanto nem sempre estão vivendo no mesmo tempo que nós. Às vezes já se foram, mas fica a sua essência, e é com ela que nos identificamos. Pessoa, Kafka, Clarice, entendo-os com uma facilidade que só pode ser coisa de alma gêmea. Na vida não encontrei essas almas que, talvez pelo fato de não ter havido Prozac na época em que viveram esses seres extraordinários, (que provavelmente teriam se beneficiado desse aliviador de tensões mas ao mesmo tempo mascarador de almas) podemos ter hoje acesso a seus mais profundos pensamentos. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ao comer o arroz que geralmente faz parte do cardápio do meu almoço diário, fiquei penalizada pelos japoneses, que têm esse cereal como ingrediente principal de sua alimentação. O arroz deles, em muitos locais do Japão, já está comprometido pela radioatividade. O nosso aqui por enquanto parece que sofre apenas com os agrotóxicos!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

APRENDENDO COM OS SONHOS...

foto daqui




Nunca é tarde para se aprender mais e mais. E o meu tipo predileto de aprendizado é quando consigo captar algo sobre mim mesma, que me ajude a entender melhor e saber lidar com uma dificuldade que cause um certo transtorno no viver. Viver bem é tudo o que eu quero. Comigo tem acontecido um fato relativamente novo, que é o de sonhar de forma mais intensa, lembrar-me do sonho e descobrir a mensagem oculta em seu conteúdo.
Hoje, por exemplo, acordei sentindo a nítida sensação de que uma importante mensagem me foi revelada: NÃO CONTE COM NINGUÉM PARA AJUDÁ-LO A REALIZAR SUAS TAREFAS. Isso não quer dizer que vou me tornar uma pessoa auto-suficiente e desprezar uma ajuda oferecida na hora oportuna, por alguém que demonstre boa vontade em colaborar comigo. Mas a ajuda tem que acabar aí. Se minha tarefa é mais longa tenho que contar comigo, pois ninguém tem obrigação de seguir o caminho a meu lado em missões que só a mim foram dadas executar.
Hoje sonhei o seguinte: estava numa firma trabalhando e uma colega deu-me a chance de ficar no lugar dela durante suas férias, já que havia falado com o chefe e ele concordou. Bem, ela ocupava um cargo super importante numa multinacional e seu chefe era o presidente da empresa, um americano que precisava de tudo para "ontem" (quero fazer um parênteses e dizer que a vida toda trabalhei como secretária executiva de multinacionais, sempre em cargo de vice-presidência, sendo que nas duas últimas firmas tive a chance de substituir a secretária do presidente por motivo de férias dela, até que chegou a chance de eu ocupar dali em diante o cargo de secretária do presidente). Acontece que parei de trabalhar em 1994, hoje sou aposentada e o sonho de ontem tem tudo a ver com aqueles tempos. Para quem tiver a curiosidade de ler essa longa dissertação, vamos lá....Em meu sonho dessa noite passada, estava eu para substituir a secretária que ia de férias e ela me passou um calhamaço de papel que teria que ser copiado em uma máquina super moderna, recém chegada na firma, que ninguém ainda sabia manusear, a não ser ela. Bem, aprendi o manejo e comecei o trabalho, sendo que minha colega estava ao meu lado. Na hora em que ia encerrar a tarefa, faltando uma última folha, percebi que a máquina não aceitava o comando e ela disse que para encerrar a cópia havia um comando especial que iria me ensinar. Só que nesse exato momento ela recebeu um telefonema dizendo que o sobrinho havia sido sequestrado e me deixou, saindo correndo por um caminho que se transformou em um quase charco, cheio de buracos, por onde ela conseguiu atravessar com facilidade. Já eu saí correndo atrás dela, na tentativa de ao menos ser informada verbalmente como faria para finalizar meu trabalho com as cópias. Só que eu estava de salto alto e a todo momento enganchava o salto nas irregularidades do terreno e cada vez me afastava mais da secretária. Resultado: não consegui terminar a tarefa. Não sei o que iria acontecer comigo, pois a cena seguinte do sonho foi mais problemática ainda: para eu me dirigir ao local de meu trabalho tinha que seguir por um caminho onde havia um tipo de labirinto formado por uma cerca de arame onde eu entrava mas não conseguia achar a saída. Os meus colegas que passavam por ali tentavam me ajudar e eu tinha que dar marcha ré e recomeçar o caminho. Minhas roupas ficaram rasgadas  pelo esforço de passar nos arames. Finalmente cheguei à minha sala e "meu chefe provisório" foi muito amável, sabendo das minhas dificuldades para chegar até lá. (não me perguntem como ele soube...rsrs)

A mim ficou claro que, apesar da boa vontade das pessoas, sempre pode acontecer um fato que faça com que a pessoa que está me ajudando fique impedida de continuar a fazê-lo. Por essas razões tenho que contar comigo e o melhor a fazer é entrar de cabeça em toda e qualquer situação, prestando toda a atenção possível, enquanto posso.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Tudo está na mente, a não ser o que a transcende...mas até para se saber o que é transcendência da mente, necessita-se dela para raciocinar a respeito. Claro que se houver uma experiência em estado alterado de consciência, em que se vive algo quase que impossivel de definir e explicar (porque para isso teríamos que usar a mente) a coisa fica como o dito pelo não dito, pois é mesmo tarefa fora de nosso alcance transmitirmos com fidelidade a experiência obtida num estado de não-mente. Acontece com muitas pessoas esse tipo de experiência, comigo já duas vezes e nem me atrevo a descrever o que foi isso. O que eu gostaria de compartilhar, no entanto,  é uma idéia que me veio hoje ao acordar, após um sonho repleto de ocorrências - a maioria muito agradáveis! -  em que fiquei na dúvida se, nos sonhos, transcendemos de alguma forma nossa consciência do dia a dia, ou se ainda estamos no terreno da mente, embora vivendo experiências totalmente diferentes de nossa rotina e vida em vigília. Digo isso porque tenho sentido uma diferença marcante em meu psiquismo ultimamente. Problemas psico-somáticos que venho carregando há 30 anos começam, de maneira surpreendente, a se dissipar. Tenho sonhado de maneira mais intensa que o usual e nos sonhos aparecem cenas que dão a impressão de serem escolhidas a dedo para me colocarem frente a situações que de outra forma não poderia visualisar (nem através da memória) e consequentemente, tentar refletir sobre o conteúdo delas para uma posterior libertação de certos traumas de infância.

Se alguém quiser compartilhar alguma idéia sobre o tema, fique à vontade. Esses assuntos sempre dão pano pra manga...


foto:aqui

MAIS SOBRE SONHOS...


(em protesto contra o google, que está removendo minhas fotos aqui no blog, quero apenas dizer que as imagens que coloco são públicas e eu sempre escrevo abaixo da foto que a imagem é da internet.Muito antipática essa prática do google. Deixo isso aqui registrado para futuras referências)



Poupo meus amigos de lerem sobre mais um de meus sonhos em detalhes, mas apenas queria registrar em poucas palavras que a noite passada vai ficar em minha memória como uma das mais pródigas em experiências oníricas! Nem se eu tivesse tomado LSD talvez tivesse tido uma vivência tão intensa, fascinante e repleta de eventos fantásticos! Coloco a foto de um passarinho para dar uma idéia de uma das etapas do sonho, em que um passarinho semelhante a esse me fez companhia e interagiu de maneira surpreendente. Senti o que pode ser definido como a verdadeira amizade entre um ser humano e um animal, no caso uma frágil avezinha. As outras inúmeras fases do sonho foram igualmente fantásticas, mas como já disse aqui, vou poupá-los!